IRIS 2026 e SDMA: o que mudou e quais cuidados devemos ter na interpretação?


O SDMA (dimetilarginina simétrica) ganhou espaço nos últimos anos como biomarcador de função renal em cães e gatos e hoje faz parte do sistema de estadiamento da doença renal crônica (DRC) proposto pela International Renal Interest Society (IRIS).
Sua principal vantagem é conhecida: por sofrer menor influência da massa muscular do que a creatinina e apresentar boa relação com a taxa de filtração glomerular (TFG), o SDMA pode auxiliar na identificação de reduções da função renal antes que alterações importantes na creatinina sejam observadas.
Mas o aumento da importância do SDMA não transforma o exame em um marcador perfeito.
E entender isso se torna ainda mais importante quando utilizamos seus resultados para diagnóstico, estadiamento e acompanhamento de pacientes com doença renal.
O que a IRIS 2026 traz sobre o SDMA?
Nas diretrizes atuais, creatinina e SDMA podem ser utilizados para o estadiamento de pacientes com DRC estável. Quando os dois marcadores estão disponíveis, a avaliação conjunta é considerada ideal, pois eles fornecem informações complementares sobre a função renal.
A IRIS também reconhece a utilidade do SDMA na identificação de pacientes com redução da função renal mesmo quando a creatinina ainda se encontra dentro do intervalo de referência.
Uma concentração de SDMA persistentemente acima do intervalo de referência pode, portanto, contribuir para o diagnóstico de DRC e para a classificação de pacientes nos estágios iniciais.
Mas existe uma palavra especialmente importante nessa recomendação: persistencia.
Um resultado isolado não deve ser interpretado da mesma maneira que uma alteração que se mantém ao longo do acompanhamento do paciente.
SDMA aumentado significa doença renal crônica?
Não necessariamente.
O SDMA é um biomarcador de função renal e sua eliminação ocorre predominantemente por filtração glomerular. Dessa forma, sua concentração sanguínea tende a aumentar quando ocorre redução da TFG.
Mas redução da filtração glomerular não é sinônimo automático de doença renal crônica.
Alterações relacionadas ao estado volêmico, perfusão renal e outras condições clínicas podem modificar a função renal sem necessariamente representar uma lesão renal crônica estabelecida.
A própria IRIS chama atenção para esse ponto: utilizar apenas um aumento persistente do SDMA para diagnosticar DRC pode aumentar a sensibilidade da investigação, mas também reduzir sua especificidade.
Em outras palavras, quanto mais cedo tentamos identificar uma doença, maior pode ser o risco de classificar como doente um paciente que não apresenta DRC.
Por isso, principalmente diante de aumentos discretos do SDMA, outros achados devem ser utilizados para corroborar a suspeita.
O SDMA deve ser interpretado junto com outros exames
A interpretação da função renal não deve depender de um único biomarcador.
Quando encontramos um SDMA aumentado, é importante avaliar conjuntamente:
creatinina;
urinálise;
densidade urinária;
relação proteína:creatinina urinária (RPCU);
pressão arterial;
achados de imagem, quando indicados;
condição corporal e massa muscular;
histórico e exame clínico do paciente.
Essa integração se torna particularmente importante quando SDMA e creatinina apresentam resultados discordantes.
A recomendação da IRIS é considerar fatores individuais do paciente, como condição corporal e massa muscular, e repetir a avaliação. Se a discordância persistir, ela deve ser interpretada dentro do conjunto de informações disponíveis para aquele paciente.
O SDMA também possui limitações pré-analíticas e analíticas
Nenhum resultado laboratorial começa no equipamento.
Coleta, qualidade da amostra, conservação, transporte e metodologia fazem parte do processo analítico e podem interferir na confiabilidade do resultado.
Um exemplo importante citado pela própria IRIS é a hemólise.
Em determinadas situações, a hemólise pode interferir no ensaio de SDMA e produzir resultados falsamente diminuídos. Portanto, quando existe discordância entre uma creatinina elevada e um SDMA aparentemente normal, a qualidade da amostra também deve ser considerada.
Além disso, é importante lembrar que as recomendações da IRIS foram construídas a partir de evidências obtidas com métodos específicos de mensuração do SDMA. Resultados produzidos por diferentes metodologias não devem ser automaticamente considerados equivalentes sem que exista validação adequada.
Esse é um ponto especialmente importante na Medicina Laboratorial: um número nunca existe independentemente do método que o produziu.
E as condições fisiológicas e doenças concomitantes?
O SDMA apresenta uma vantagem importante em relação à creatinina por sofrer menor influência da massa muscular.
Isso não significa, entretanto, que sua concentração seja completamente independente das condições do paciente.
A própria IRIS reconhece que nosso conhecimento sobre situações em que o SDMA pode estar aumentado por problemas médicos não relacionados à DRC ainda está em desenvolvimento.
Por isso, um resultado inesperado ou incompatível com os demais achados não deve ser simplesmente encaixado em uma classificação.
Primeiro precisamos perguntar: esse resultado faz sentido para este paciente?
Resultados limítrofes merecem acompanhamento
Outro conceito importante é evitar transformar um único ponto de corte em uma divisão absoluta entre normalidade e doença.
Pacientes com concentrações limítrofes de SDMA e/ou creatinina devem ser reavaliados.
A IRIS recomenda que valores limítrofes sejam inicialmente confirmados com nova avaliação e, posteriormente, acompanhados longitudinalmente para verificar a estabilidade da função renal.
Essa avaliação seriada costuma fornecer muito mais informação do que um resultado isolado.
Um SDMA discretamente aumentado uma única vez conta uma história.
Um SDMA que permanece aumentado ou apresenta tendência progressiva ao longo dos meses conta outra.
SDMA e creatinina não precisam competir
É comum encontrarmos discussões sobre qual seria o "melhor marcador renal": SDMA ou creatinina.
Na prática, essa comparação perde parte do sentido.
Os dois biomarcadores apresentam vantagens e limitações diferentes.
A creatinina possui ampla disponibilidade e uma longa história de utilização clínica, mas sofre influência importante da massa muscular e apresenta baixa sensibilidade para pequenas reduções da TFG.
O SDMA sofre menor influência da massa muscular e pode identificar alterações da função renal mais precocemente em alguns pacientes, mas também possui limitações e não deve ser interpretado como marcador isolado de doença renal.
Por isso, quando disponíveis, creatinina e SDMA devem ser vistos como informações complementares, e não concorrentes.
De Dentro do Lab: o resultado não é o diagnóstico
Talvez essa seja a principal mensagem quando falamos sobre a crescente importância do SDMA.
Reconhecer as limitações de um exame não diminui seu valor.
Pelo contrário.
Quanto maior a importância que atribuímos a um biomarcador nas decisões clínicas, maior deve ser o cuidado para compreender como aquele resultado foi produzido e o que ele realmente representa.
O SDMA é uma ferramenta importante na avaliação da função renal de cães e gatos e ganhou um papel relevante dentro das recomendações da IRIS.
Mas continua sendo exatamente isso:
uma ferramenta dentro de uma avaliação muito maior.
O laboratório fornece o resultado.
A interpretação acontece quando esse resultado é integrado à urinálise, à creatinina, à proteinúria, aos demais exames e, principalmente, ao paciente.
Porque a IRIS classifica pacientes — não apenas números.
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O SDMA é apenas uma das peças que precisamos integrar na avaliação do paciente renal.
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Referências
International Renal Interest Society (IRIS). IRIS Guidelines – 2026 revisions.
International Renal Interest Society (IRIS). IRIS Staging of CKD.
HALL, J. A. et al. Comparison of serum concentrations of symmetric dimethylarginine and creatinine as kidney function biomarkers in cats with chronic kidney disease. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2014.
NABITY, M. B. et al. Symmetric dimethylarginine assay validation, stability, and evaluation as a marker for the early detection of chronic kidney disease in dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine.



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