Processos Fisiopatológicos x Doenças: Por Que Essa Confusão Prejudica a Interpretação dos Exames Veterinários
- Giovana Balarin
- 2 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

Na rotina veterinária, especialmente na patologia clínica, existe uma confusão conceitual que gera erros diagnósticos, protocolos mal elaborados e interpretações superficiais: tratar processos fisiopatológicos como se fossem doenças, ou interpretar padrões de exames como diagnósticos fechados.
Essa confusão é mais comum do que parece e afeta desde estudantes até profissionais experientes. E o problema é simples de entender: processos e doenças não são a mesma coisa. Se você interpreta um como sendo o outro, inevitavelmente sua tomada de decisão será distorcida.
Muito dessa má interpretação vem da falta de base e conhecimento em fisiologia e entendimento geral funcionamento sistêmico do organismo, levando a uma analise rasa e fechada em torno de patologias.
O que são processos fisiopatológicos?
Processos fisiopatológicos são respostas do organismo a uma agressão, lesão, infecção ou desequilíbrio.
Eles não são diagnósticos, e sim consequências da doença primária.
Alguns exemplos clássicos:
Hemólise
Inflamação
Imunossupressão
Hipóxia tecidual
Anemia não regenerativa
Necrose
Supressão medular
Esses processos aparecem nos exames como padrões, não como causas.
Por exemplo: Anemia não regenerativa é um padrão hematológico, ela pode surgir por dezenas de causas: doença renal crônica, inflamação crônica, hipoplasia/aplasia medular, endocrinopatias, intoxicações, deficiência nutricional, doenças infecciosas…
👉 O processo é uma resposta. A doença é a origem dessa resposta.
E então, o que é uma doença?
Doença é a causa primária, o evento desencadeador.
Cada doença pode ativar vários processos diferentes ao mesmo tempo.
Por exemplo: Ehrlichia canis pode gerar:
Imunossupressão
Linfopenia
Anemia não regenerativa
Vasculite
Trombocitopenia
Hemólise imunomediada (AHIM secundária)
Perceba que não existe “um processo por doença”.
A mesma doença ativa uma combinação de mecanismos, e isso varia conforme: Fisiologia individual, Tempo de evolução, Coinfecções, Estado imune, Comorbidades, Genética, Uso prévio de medicamentos
Ou seja: dois cães com erliquiose não necessáriamente terão o mesmo hemograma.
Como essa confusão gera falhas na interpretação dos exames?
Quando um processo fisiopatológico é lido como diagnóstico, três erros graves acontecem:
1. Diagnóstico final baseado em um único padrão
Exemplos clássicos:
❌ “Anemia não regenerativa = hipoplasia medular”
❌ “Hemólise = AHIM”
❌ “Linfopenia = imunossupressão medicamentosa”
❌ “Neutrofilia = infecção bacteriana”
Isso não é diagnóstico.
Isso é desconsiderar toda a fisiologia do paciente.
2. Protocolos criados em cima de processos, não de causas
Ao confundir o processo com a doença, profissionais elaboram protocolos generalizados que ignoram o mecanismo real.
Exemplo: Comparar AHIM com hemoparasitose.
Isso é comparar duas doenças completamente diferentes — quando o correto seria comparar tipos de hemólise (imunomediada vs. infecciosa), e ainda considerar que a mesma doença pode desencadear os dois processos.
Outro exemplo: Comparar “anemia não regenerativa x hipoplasia medular”, quando:
Anemia NR é um processo, Hipoplasia é uma causa.
Protocolos feitos em cima dessa confusão inevitavelmente induzem ao erro, porque tratam o efeito como se fosse a origem.
3. Perda do raciocínio fisiológico
Quando alguém memoriza listas de doenças que “causam linfopenia”, mas não entende o mecanismo celular por trás disso, o diagnóstico vira um jogo de chute.
Exemplos clássicos:
Linfopenia pode ser por cortisol, por uso de corticoide, por vírus, por imunossupressão crônica, por estresse…
Hemólise pode ser imunomediada, mecânica, oxidativa, infecciosa, tóxica, térmica, hereditária…
Azotemia pode ser pré-renal, renal, pós-renal — cada uma com múltiplos processos envolvidos.
👉 Sem entender mecanismos, todo exame vira uma “lista de possibilidades”, e não um raciocínio.
🔄 Um mesmo paciente pode ter vários processos simultâneos
E é aqui que muita interpretação se perde.
Um único animal pode apresentar: Linfopenia por imunossupressão, Anemia não regenerativa por inflamação, Trombocitopenia por destruição periférica, Aumento de ureia por catabolismo, Hiperbilirrubinemia por hemólise
Todos esses processos ao mesmo tempo, cada um decorrente de uma ou mais doenças.
👉 Nenhum protocolo pronto pode prever isso.
🩸 Doenças concomitantes ou sequenciais também confundem
Além de múltiplos processos simultâneos, o paciente pode ter duas doenças ao mesmo tempo, como: DRC + pancreatite; Ehrlichia + Babesia; Neoplasia + infecção bacteriana; Parvovirose + hemoparasitose; Endocrinopatia + doença inflamatória crônica
Ou ainda, uma doença desencadeando outra: Ehrlichia canis → AHIM secundária
👉 Só é possível entender esse quadro se você entende processo → mecanismo → doença.
🎯 A interpretação correta depende de um princípio fundamental:
Processos não são diagnósticos. Doenças causam processos.
Interpretar um processo como doença leva a: Raciocínio limitado, Protocolos errados, Diagnósticos precipitados, Condutas inadequadas, Falha em reconhecer comorbidades, Falha em reconhecer complicações, Exames solicitados de forma equivocada.
🧠 O caminho certo: raciocínio baseado em mecanismos
Para interpretar exames corretamente, o profissional deve sempre perguntar:
1. Qual é o padrão / processo?
(ex.: anemia NR, hemólise, linfopenia, hiperproteinemia)
2. Qual é o mecanismo que explica esse processo?
(imunológico, infeccioso, tóxico, carencial, endócrino, mecânico, oxidativo…)
3. Quais são as doenças que podem gerar esse mecanismo?
(a lista fica lógica, e não decorada)
4. Quais doenças fazem sentido para ESTE paciente?
(considerando história, sinais clínicos, evolução, comorbidades, fisiologia individual)
Esse é o fluxo que separa um raciocínio clínico maduro de uma interpretação superficial dos exames.
Toda doença causa mudanças fisiológicas que se traduzem em processos fisiopatológicos, e cada paciente responde de maneira única.
Por isso, confundir processos com diagnósticos é uma das principais causas de erros na interpretação dos exames.
👉 Protocolos baseados em processos são perigosos.
👉 Diagnósticos baseados em mecanismos são precisos.
Reconhecer, diferenciar e compreender os processos fisiopatológicos é a base para interpretar corretamente hemograma, bioquímica, urinálise, líquidos cavitários e qualquer outro exame.
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