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Proteína plasmática e proteína total sérica: diferenças e relações entre esses parâmetros

  • Foto do escritor: Dra. Giovana Stipp
    Dra. Giovana Stipp
  • 13 de ago.
  • 6 min de leitura

Cão Poodle durante atendimento veterinário para avaliação clínica e exames laboratoriais.

Recentemente, recebi uma dúvida que parecia simples:

"A globulina da minha cachorra veio muito alta. Será que pode ser por causa do tártaro?"

Mel é uma Poodle de 11 anos e havia realizado um check-up antes de uma limpeza dentária. No hemograma e na bioquímica, praticamente tudo estava dentro do esperado.

A única alteração que havia chamado a atenção era uma globulina bastante elevada.

A princípio, seria fácil começar a pensar em todas as possíveis causas de uma hiperglobulinemia.

Mas, antes disso, fui conferir os resultados que deram origem àquele cálculo.

E foi aí que encontrei algo que chamou muito mais a minha atenção:

Proteína plasmática: 6,6 g/dL

Proteína total sérica: 12,0 g/dL

Os dois resultados estavam muito distantes entre si.

E, mais importante: eram resultados que deveriam conversar entre si.

Foi essa discrepância que mudou completamente o raciocínio.

Antes de perguntar "o que pode causar essa globulina alta?", a pergunta passou a ser:

"Como podemos ter uma proteína plasmática de 6,6 g/dL e uma proteína sérica de 12 g/dL no mesmo paciente?"

Para entender por que essa diferença é tão importante, precisamos voltar um passo e entender o que exatamente estamos medindo quando falamos em proteína plasmática, proteína sérica e globulina.


Proteína plasmática e proteína sérica: qual é a diferença?

Embora os termos sejam muitas vezes utilizados como se fossem equivalentes, plasma e soro não são a mesma amostra.

O plasma é obtido a partir do sangue coletado com anticoagulante. Ele contém água, eletrólitos, albumina, globulinas e outras proteínas, incluindo o fibrinogênio.

O soro, por outro lado, é obtido depois que o sangue coagula. Durante a coagulação, o fibrinogênio participa da formação do coágulo e, por isso, não permanece no soro na mesma quantidade encontrada no plasma.

De forma simplificada:

PLASMA: Albumina + globulinas + fibrinogênio + outras proteínas e solutos

SORO: Albumina + globulinas + outras proteínas e solutos(sem o fibrinogênio consumido na coagulação)

Essa diferença ajuda a explicar uma relação importante:

a proteína plasmática tende a ser igual ou discretamente maior que a proteína sérica.

Isso não significa que os valores precisam ser idênticos. Afinal, além de serem amostras diferentes, as metodologias utilizadas para obter esses resultados também podem ser diferentes.

Mas uma discrepância muito grande merece ser investigada.


Mas de onde vem a proteína plasmática do hemograma?

Na rotina veterinária, é bastante comum a estimativa da proteína plasmática ser realizada por refratometria, utilizando o plasma obtido após a centrifugação do sangue.

E aqui existe um detalhe importante: o refratômetro não mede exclusivamente proteínas.

Ele mede o índice de refração da amostra, que é influenciado principalmente pelas proteínas, mas também por outros sólidos dissolvidos.

Sódio, cloro, glicose, ureia, colesterol e lipídios, entre outros componentes, podem influenciar a leitura.

Por isso, o resultado obtido por refratometria é uma estimativa da concentração de proteína, e não uma medição direta e específica de todas as proteínas presentes na amostra.

Já nos analisadores bioquímicos, a proteína total pode ser determinada por métodos colorimétricos, como o método do biureto, que utiliza a reação das ligações peptídicas das proteínas para produzir uma alteração de cor proporcional à concentração proteica.

Portanto, quando comparamos a proteína plasmática do hemograma com a proteína total da bioquímica, estamos muitas vezes comparando:

amostras diferentes + metodologias diferentes.

Isso precisa ser considerado antes de esperar que os números sejam exatamente iguais.


Então os valores precisam ser iguais?

Não.

Diferenças entre os resultados podem acontecer e, isoladamente, não significam erro.

Em cães e gatos, entretanto, a proteína plasmática estimada por refratometria costuma apresentar valores iguais ou discretamente superiores aos obtidos para proteína sérica por métodos bioquímicos.

Isso ocorre, entre outros fatores, pela presença do fibrinogênio no plasma e pela influência de outros sólidos sobre a leitura refratométrica.

Por isso, diante de uma diferença pequena, devemos considerar:

  • tipo de amostra;

  • metodologia;

  • variação analítica;

  • características do paciente;

  • presença de interferentes.

Mas imagine encontrar:

Proteína plasmática: 6,6 g/dL

Proteína total sérica: 12,0 g/dL

Nesse cenário, não estamos diante de uma simples diferença metodológica que pode ser ignorada.

Existe uma discrepância importante entre os resultados.

E é justamente nesse momento que a interpretação laboratorial precisa parar e investigar.


E onde entra a globulina?

Aqui está outro ponto fundamental do caso.

Na rotina bioquímica, a concentração de globulinas frequentemente não é determinada diretamente.

Ela é calculada a partir da relação entre proteína total e albumina:

Globulina = Proteína total − Albumina

Por exemplo:

Proteína total = 8,0 g/dLAlbumina = 3,0 g/dL

Globulina = 5,0 g/dL

Isso significa que a globulina calculada depende diretamente do valor da proteína total.

Se a proteína total utilizada no cálculo estiver incorreta, superestimada ou subestimada, a globulina calculada também estará.

Por isso, diante de uma hiperglobulinemia, uma das primeiras perguntas deveria ser:

A proteína total utilizada para calcular essa globulina é confiável?

Essa pergunta é especialmente importante quando o resultado não conversa com os demais dados do paciente.


E se a amostra estiver lipêmica ou hemolisada?

A qualidade da amostra também faz parte da interpretação laboratorial.


Lipemia

A lipemia altera as características ópticas da amostra e pode interferir em diferentes metodologias.

Na refratometria, por exemplo, a presença de lipídios pode aumentar falsamente a estimativa de proteína, porque altera o índice de refração da amostra. A intensidade dessa interferência depende da metodologia e da concentração de lipídios.

Por isso, um plasma ou soro lipêmico não deve ser simplesmente ignorado.

A amostra precisa ser avaliada juntamente com o resultado.


Hemólise

Na hemólise ocorre liberação do conteúdo intracelular para o plasma ou soro.

Além de modificar diversos analitos, a hemoglobina livre pode interferir em determinadas metodologias.

Na determinação da proteína total pelo método do biureto, por exemplo, hemólise intensa pode aumentar o resultado porque a hemoglobina também reage como uma proteína no ensaio. Na refratometria, a hemólise pode dificultar a leitura da linha de refração.

Isso mostra por que a avaliação visual da amostra e os índices de interferência fornecidos pelo equipamento são informações laboratoriais importantes, e não meros detalhes administrativos.


Mas e no caso da Mel?

Diante de uma proteína plasmática de 6,6 g/dL e uma proteína total sérica de 12 g/dL, eu não começaria tentando explicar a globulina elevada.

Primeiro, eu investigaria a discrepância.

Algumas perguntas importantes seriam:

1. Os dois resultados vieram da mesma coleta?

2. Foram utilizadas amostras adequadas para cada metodologia?

3. A proteína plasmática foi determinada por refratometria?

4. A proteína sérica foi determinada por analisador bioquímico?

5. Como estava a aparência da amostra?

6. Havia lipemia, hemólise ou icterícia?

7. O laboratório identificou algum índice de interferência?

8. Houve algum problema pré-analítico ou analítico?

9. O resultado pode ser repetido?

Somente depois de confirmar que os resultados são confiáveis faz sentido interpretar clinicamente uma hiperglobulinemia.


Um resultado alterado não existe sozinho

Esse caso traz uma lição que vai muito além das proteínas.

Na rotina clínica, é tentador olhar para um valor alterado e imediatamente perguntar:

"O que causa esse resultado?"

Mas existe uma pergunta que deveria vir antes:

"Esse resultado faz sentido?"

A interpretação laboratorial não consiste apenas em reconhecer valores altos ou baixos.

É preciso comparar resultados, conhecer a metodologia utilizada, avaliar a amostra, reconhecer possíveis interferentes e correlacionar os dados com o paciente.

Porque um resultado pode estar numericamente correto para aquela metodologia e, ainda assim, não fazer sentido quando colocado ao lado dos demais resultados.

Foi exatamente isso que aconteceu nesse caso.

A globulina elevada chamou atenção.

Mas foi a discrepância entre as proteínas que revelou que aquele resultado precisava ser questionado antes de ser interpretado.

Antes de procurar uma doença, procure coerência.

Essa é uma das bases da análise crítica dos exames laboratoriais.


Para guardar

Proteína plasmática ≠ proteína total sérica

Os resultados podem apresentar diferenças porque envolvem amostras e metodologias diferentes.

A proteína plasmática estimada por refratometria costuma ser igual ou discretamente maior que a proteína sérica em cães e gatos.

Uma discrepância importante entre os dois resultados merece investigação.

E, quando a globulina é calculada:

Globulina = Proteína total − Albumina

qualquer problema relacionado à proteína total pode repercutir diretamente no valor calculado da globulina.


Não interprete apenas o número.Interprete a relação entre os números.


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